Artigo |Carnaval de Loulé: comunidade, memória e futuro – em debate na Casa da Cultura de Loulé
Coordenação editorial: André Costa
Na noite de 6 de março, a Casa da Cultura de Loulé acolheu o primeiro encontro de um novo ciclo de conversas do núcleo de Participação e Envolvimento Cívico. O tema escolhido, dinamizado pelo arquiteto Carlos Pinto, não podia ser mais identitário: o Carnaval de Loulé. Várias intervenções e partilha de memórias, levaram louletanos de diferentes gerações a reunirem-se para refletir sobre uma festa que há mais de um século marca a vida da cidade.
Mais do que um simples desfile, o Carnaval foi descrito como uma expressão coletiva de identidade, marcada pela participação popular, pela criatividade e pelo encontro na rua. Mas também como uma tradição que, para continuar viva, precisa de se adaptar. Como foi referido durante a conversa: “uma tradição que não muda dificilmente consegue resistir ao tempo”.
0. O Carnaval visto através de estudos
Um dos pontos de partida da reflexão foi a referência a dois estudos sobre o Carnaval de Loulé: o primeiro, de natureza quantitativa, foi desenvolvido em 2006 (1); e o segundo, de natureza qualitativa, de 2013 (2). Ambos os trabalhos, realizados pelo gabinete dirigido pelo professor Fernando Sousa, procuraram analisar o público, a relação da comunidade com a festa e possíveis caminhos de evolução, servindo agora como arranque para novas reflexões sobre o presente e futuro desta tradição.
1. Uma festa construída pela comunidade
Foi recordado que, durante grande parte do século XX, o Carnaval de Loulé foi essencialmente uma festa construída pela própria comunidade. Por exemplo, as juntas de freguesia tinham um papel importante na construção de carros alegóricos e várias instituições locais contribuíam para a organização do evento. Existia também uma dinâmica de competição entre os grupos que preparavam os carros, muitas vezes marcada por algum secretismo sobre os temas e as surpresas que seriam apresentadas.
Para muitos dos presentes, essa forte participação coletiva era uma das principais forças do Carnaval, contribuindo para o seu carácter popular e para a ligação entre a festa e a comunidade local. Foi igualmente recordado que o objetivo meritório de destinar parte das receitas das festividades ao financiamento do Hospital da Santa Casa da Misericórdia funcionava como uma motivação adicional para a mobilização social.
2. Entre o Carnaval popular e o espetáculo organizado
Outro dos temas transversais ao debate foi a transformação do Carnaval ao longo das últimas décadas. Alguns participantes recordaram que, em determinados momentos, a organização procurou aproximar o modelo do desfile de outros carnavais mais espetacularizados, inspirados em modelos brasileiros.
Segundo os participantes, este processo trouxe melhorias ao nível da organização e da dimensão visual do evento, mas também gerou críticas. Para alguns, o Carnaval tornou-se progressivamente mais profissionalizado e menos espontâneo, aproximando-se de um espetáculo que se observa em vez de um festa em que se participa.
Esta mudança foi sintetizada numa ideia repetida várias vezes durante a conversa: a institucionalização excessiva pode acabar por reduzir a criatividade popular.
3. O “carnaval sujo” e a liberdade de brincar
A conversa rumou para o “carnaval sujo”, para os mais novos “ovada” (3), associado a brincadeiras com ovos, farinha e água. Para muitos louletanos, estas práticas fazem também parte da festa e simbolizavam a dimensão lúdica e transgressora do Carnaval. Contudo, assinalou-se que nos últimos anos, esse tipo de brincadeira passou a ser reprimida dentro do recinto, o que alguns consideraram ter contribuído para uma perda da espontaneidade.
A questão levantou também reflexões sobre o equilibrio entre segurança, organização e liberdade festiva.
4. A cidade depois do desfile
Abordou-se também a relação entre o Carnaval e a cidade. Vários participantes observaram que o desfile tende a concentrar a maior parte da atenção durante a tarde, enquanto a cidade perde movimento após o final do corso. Referiu-se que muitos visitantes abandonam o recinto por volta das 16h ou 17h e a vida noturna do Carnaval acaba por ser relativamente reduzida e desarticulada.
Esta situação foi apontada como um dos fatores que limitam o impacto económico da festa. Alguns participantes consideram que o Carnaval podia ser pensado como um evento mais alargado no tempo e no espaço, com atividades distribuídas pela cidade e ao longo de vários dias.
5. Um sentimento de afastamento da comunidade
Entre as preocupações mais partilhadas esteve a perceção de que o Carnaval tem vindo a perder parte do envolvimento da comunidade local. Alguns participantes referiram que muitos louletanos já não se sentem atraidos a participar, seja na construção de carros, na organização de iniciativas ou simplesmente na vivência da festa.
Este afastamento foi associado a vários fatores: a crescente profissionalização do evento, o desaparecimento de bailes e de encontros informais, bem como a menor participação das associações locais. A questão central que atravessou grande parte da conversa foi, por isso, simples mas profunda: como voltar a envolver os louletanos no Carnaval?
E surge inevitavelmente outra pergunta: estará a nova geração interessada em assumir esse papel e dar continuidade a esta tradição?
6. Ideias para o futuro
Ao longo da sessão surgiram várias propostas e sugestões para revitalizar a festa. Destacam-se: reforçar o papel das associações e do movimento associativo na organização; criar uma comissão organizadora que envolva cidadãos, instituições e jovens; diversificar momentos da festa, incluindo iniciativas noturnas; reforçar a ligação entre os diferentes carnavais existentes no concelho; criar um espaço permanente dedicado à memória do Carnaval.
Sobre o último ponto, foi recordado que já foi apresentada uma proposta para a criação de um museu dedicado à história do Carnaval.
7. Uma conversa em aberto…
O encontro terminou com a consciência de que esta primeira sessão teve sobretudo um caráter de diagnóstico. Ao longo da conversa foram partilhadas memórias, preocupações e perceções sobre a forma como o Carnaval de Loulé se transformou nas últimas décadas e sobre os desafios que hoje enfrenta.
Nesse sentido, defendeu-se que esta deve ser apenas a primeira de várias conversas dedicadas ao tema. A próxima sessão deverá acontecer possivelmente em maio e continuará a ser mediada pelo arquiteto Carlos Pinto. Essa sessão poderá ser orientada para um momento mais propositivo, em que os participantes sejam convidados a apresentar ideias, soluções e caminhos concretos para responder às questões agora levantadas.
Como escreveu António Lobo Antunes, “toda a invenção é memória” e é justamente dessa memória que nasce o futuro do Carnaval no concelho de Loulé.
[1]
Estudo “Hábitos de Visita e Avaliação do Carnaval de Loulé” (2006), desenvolvido pelo Gabinete Académico de Investigação de Marketing (GAIM) do Instituto Superior D. Afonso III, com o apoio da C.M. Loulé. Teve como objetivo caracterizar o público do Carnaval e avaliar a perceção dos participantes sobre o evento.
[2]
Estudo “Carnaval de Loulé: uma proposta para a actualização da linguagem do evento” (2013), desenvolvido pelo Gabinete Académico de Investigação de Marketing (GAIM), a pedido da C.M. Loulé. Teve como objetivo discutir a imagem, os desafios e possíveis caminho de renovação do evento.
[3]
Veja-se, a título de exemplo, o seguinte vídeo amador da “Ovada” de 2013: https://www.youtube.com/watch?v=TFyq4u-1cYg